 sentir-
se senhor do castelo, de um modo que nem mesmo Robb
conheceria.
E também lhe revelava os segredos de Winterfell. Os
construtores nem sequer tinham nivelado a terra; havia
colinas e vales por trás dos muros de Winterfell. Havia uma
ponte coberta que ligava o quarto piso da torre sineira ao
segundo piso do aviário. Bran a conhecia. E também sabia
que podia entrar na muralha interior pelo portão sul, subir
três pisos e correr por todo Winterfell dentro de um túnel
estreito aberto na pedra, e depois sair ao nível do chão no
portão norte com trinta metros de muralha a elevar-se acima
da sua cabeça. Bran estava convencido de que nem — esmo
Meistre Luwin sabia disso.
A mãe andava aterrorizada com a possibilidade de Bran um
dia escorregar de um muro e matar-se. Ele dissera-lhe que isso
não aconteceria, mas ela nunca acreditou. Uma vez o fez
prometer que permaneceria no chão. Ele conseguiu cumprir a
promessa durante quase uma quinzena, infeliz todos os dias,
até que uma noite saiu pela janela do quarto quando os
irmãos estavam mergulhados no sono.
Confessou o crime no dia seguinte, num ataque de remorso. O
Senhor Eddard ordenou-lhe que fosse se purificar no bosque
sagrado. Foram destacados guardas para assegurar que Bran
permaneceria lá toda a noite, sozinho, a refletir sobre sua
desobediência. Na manhã seguinte, Bran não se encontrava
em lado nenhum. Foram finalmente encontrá-lo,
profundamente adormecido, nos ramos superiores da mais
alta árvore sentinela do bosque.
Por mais zangado que estivesse, o pai não conseguiu evitar
uma gargalhada.
- Você não é meu filho - disse a Bran quando o trouxeram
para baixo -, é um esquilo. Que seja. Se tem de escalar, então
escale, mas não deixe que sua mãe o veja.
Bran fez o melhor que pôde, embora achasse que nunca
conseguira realmente enganá-la. Como o pai não o proibia, ela
virara-se para outros lados. A Velha Ama contou-lhe uma
história sobre um mau rapazinho que escalou alto demais e foi
atingido por um relâmpago, e sobre o modo como os corvos
vieram depois bicar-lhe os olhos. Bran não se impressionou.
Havia ninhos de corvo no topo da torre quebrada, onde
nunca ninguém ia, além dele, e às vezes enchia os bolsos de
milho antes de escalar até lá, e os corvos comiam de sua mão.
Nenhum jamais mostrou alguma vez a mais leve intenção de
lhe bicar os olhos.
Mais tarde, Meistre Luwin moldou um pequeno rapaz de
barro, vestiu-o com as roupas de Bran e atirou-o do muro
para o pátio a fim de demonstrar o que aconteceria a Bran se
caísse. Foi divertido, mas depois da demonstração Bran
limitou-se a olhar para o meistre e dizer:
- Não sou feito de barro. E, seja como for, nunca caio.
Depois disso, durante algum tempo os guardas o perseguiam
sempre que o viam nos telhados e tentavam puxá-lo para
baixo. Foi a melhor época de todas. Era como brincar com os
irmãos, exceto que naquele jogo era sempre Bran quem
ganhava. Nenhum dos guardas era capaz de escalar tão bem
como Bran, nem metade, nem mesmo Jory. E, fosse como
fosse, a maior parte das vezes nem sequer o viam. As pessoas
nunca olhavam para cima. Era outra coisa que apreciava em
escalar; era quase como ser invisível.
E também gostava da sensação de se içar por um muro acima,
pedra a pedra, com os dedos das mãos e dos pés enterrando-se
com força nas pequenas fendas que havia entre elas. Quando
escalava, tirava sempre as botas e subia descalço; aquilo o
fazia se sentir como se tivesse quatro mãos em vez de duas.
Gostava da dor profunda e doce que sentia depois nos
músculos. Gostava do sabor que o ar tinha lá em cima, doce e
frio como um pêssego de inverno. Gostava dos pássaros: os
corvos na torre quebrada, os minúsculos pardais que faziam
ninho nas fendas entre as pedras, a velha coruja que dormia
no sótão poeirento que ficava por cima do antigo armeiro.
Bran conhecia-os todos.
E acima de tudo gostava de ir a lugares onde ninguém mais
podia ir e de ver a extensão cinzenta de Winterfell de um
modo que nunca ninguém vira. Transformava todo o castelo
no lugar secreto de Bran. Seu local favorito era a torre
quebrada. Antigamente tinha sido uma torre de atalaia, a
mais alta de Winterfell. Há muito tempo, cem anos antes
mesmo que seu pai tivesse nascido, um relâmpago a
incendiara. O terço superior da estrutura tinha tombado para
dentro, e a torre nunca fora reconstruída. Por vezes, seu pai
mandava caçadores de ratos até a base dela para limpar os
ninhos que encontravam sempre por entre a confusão de
pedras caídas e traves queimadas e podres. Mas agora nunca
ninguém ia até o topo irregular da estrutura, salvo Bran e os
corvos.
Conhecia duas maneiras de chegar lá. Podia-se ir diretamente,
escalando o lado da própria torre, mas as pedras estavam
soltas, a argamassa que as mantivera juntas havia muito que
tinha se transformado em cinzas, e Bran nunca gostara de pôr
todo seu peso em cima delas.
A melhor maneira era partir do bosque sagrado, escalar a
grande sentinela, atravessar o armeiro e o salão dos guardas,
saltando de telhado em telhado d